47 anos sem solução: o caso da menina Araceli

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Há 47 anos, o Brasil vivia um de seus mais brutais e cruéis assassinatos. A menina Araceli, de apenas 8 anos, foi raptada, drogada, estuprada e morta na cidade de Vitória, no Espírito Santo. Após dias, o corpo foi encontrado desfigurado e em avançado estado de decomposição em um matagal na cidade.

Mesmo quatro décadas depois, o crime permanece sem solução. Várias versões foram apresentadas à polícia, e testemunhas-chaves morreram durante as investigações. Por isso, o processo acabou com a absolvição dos acusados e foi arquivado pela Justiça. O caso instituiu o Dia Nacional de Combate ao Abuso Sexual contra Crianças no dia 18 de maio.

Foto: Wikimedia Commons

Desaparecimento

No dia 18 de maio de 1973, Araceli Cabrera Crespo seguia para a Escola São Pedro, na Praia do Suá, na capital do Espírito Santo. No entanto, o que era para ser apenas uma sexta-feira normal acabou se tornando em uma terrível brutalidade.

Por conta do horário do ônibus que a levaria de volta para casa, a mãe de Araceli, Lola Cabrera Crespo, pediu para que a menina saísse da escola mais cedo. Ao sair da aula, ela foi vista por um adolescente em um bar entre o cruzamento das avenidas Ferreira Coelho e César Hilal, em Vitória, que fica a poucos minutos do colégio.

Segundo o depoimento da testemunha, Araceli não teria entrado no veículo e optou por ficar brincando com um gato no estabelecimento. Esta seria a última vez que ela teria sido vista publicamente. Quando a noite chegou, o pai, Gabriel Sanchez Crespo, iniciou as buscas pela filha.

Corpo de Araceli é encontrado

Foto: CEDOC/ A Gazeta

Em 24 de maio, seis dias após o desaparecimento da menina, o corpo de uma criança foi encontrado desfigurado e em avançado estado de decomposição em uma mata atrás do Hospital Infantil, em Vitória. O cadáver foi encontrado pelo policial Ronaldo Monjardim, que na época, tinha 15 anos.

Inicialmente, Gabriel reconheceu o corpo como sendo o da filha. Porém, no dia seguinte, ele acabou desmentindo a informação. Meses depois, exames constaram que aquela era, de fato, Araceli. A partir daí, o caso estampava os principais jornais do país.

Acusação

Durante as investigações, provas e depoimentos acabaram se misturando com boatos da época. Isso porque grande parte das testemunhas morreram, e as que ainda estão vivas se recusam a falar sobre o assunto. No entanto, mesmo assim, a Justiça chegou a três suspeitos pelo assassinato de Araceli: Dante de Barros Michelini (o Dantinho), Dante de Brito Michelini (pai de Dantinho) e Paulo Constanteen Helal.

Foto: Reprodução/ TV Gazeta

Todos os três pertenciam a tradicionais famílias do Espírito Santo, além de possuírem influências junto ao governo militar. A versão apresentada pela acusação, que mais tarde terminou no julgamento dos acusados, afirma que Araceli foi raptada por Paulo Helal, na saída do colégio.

Depois, ela teria sido levada para o então Bar Franciscano, na Praia de Camburi, que pertencia a Dante Michelini, onde foi estuprada e mantida em cárcere privado sob efeito de drogas. Dopada, a criança entrou em coma. A caminho do hospital, os suspeitos teriam percebido que ela já estava morta e tiveram a ideia de jogar o cadáver no matagal próximo à região.

Investigações

De acordo com a denúncia apresentada pelo promotor Wolmar Bermudes, revelada pelo Globo Repórter de 1977, Dante Michelini usou suas ligações e influência com oficiais da ditadura para dificultar o trabalho da polícia. Já Paulo Helal e Dantinho negaram conhecer Araceli ou qualquer outro membro da família Cabrera Crespo.

Julgamento

Em 1980, o juiz responsável pelo caso, Hilton Silly considerou que eles eram culpados e definiu a sentença: Paulo Helal e Dantinho deveriam cumprir 18 anos de reclusão, além de pagar de uma multa de 18 mil cruzeiros. Dante Michelini, por sua vez, foi condenado a 5 anos de prisão.

Na ocasião, o juiz Hilton Silly disse em entrevista ao Jornal da Globo que os três foram condenados, porque foi provada a materialidade e a autoria do crime.

Todavia, os acusados recorreram da decisão, e o caso voltou a ser investigado. Foi aí que o Tribunal de Justiça do Espírito Santo anulou a sentença, e o processo passou para o juiz Paulo Copolilo. Em um relatório de mais de 700 páginas, Copolilo absolveu os acusados por falta de provas – o que fez com que o caso fosse arquivado e permanecesse sem solução até hoje.

No livro-reportagem Aracelli, Meu Amor (1976), o autor José Louzeiro relata que 14 pessoas morreram durante as investigações – tanto testemunhas, quanto pessoas que trabalhavam para ajudar a desvendar o mistério. Ele também conta que ele mesmo, durante a pesquisa, teria sido alvo de uma tentativa de queima de arquivo.

Fonte: G1

Você já conhecia o caso da menina Araceli?

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