Anastásia: a verdadeira história da princesa russa

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Já assistiu ao filme Anastásia? O longa, produzido em 1997 pela extinta Fox Animation Studios, não é tão famoso e conhecido quanto os das outras princesas.

Baseada na lenda de que a princesa Anastásia Romanov escapou do assassinato de sua família durante a Revolução Russa, a animação dividiu opiniões entre historiadores.  De qualquer forma, o público a recebeu bem, assim como a Academia – que lhe rendeu o prêmio de duas categorias do Oscar: Melhor Musical e Melhor Canção Original, pela inesquecível “A Journey to the Past”.

Com um final para lá de feliz, o filme nos leva a acreditar que a história da grã-duquesa russa foi, de fato, um conto de fadas. Porém, a realidade nos diz o contrário: os Romanov tiveram um destino terrível.

A história de Anastásia

Anastásia Nikolaevna Romanova nasceu no dia 18 de junho de 1901, em São Petersburgo, na Rússia. Ela foi a quarta filha e segunda mais nova do czar Nicolau II da Rússia e da czarina Alexandra Feodorovna, os últimos governantes autocráticos da Rússia Imperial. Tinha três irmãs mais velhas, Olga, Tatiana e Maria, e um irmão mais novo, Alexei. Ela morreu aos 17 anos, em julho de 1918, quando soldados bolcheviques a executaram junto à sua família.

Em muitas biografias da grã-duquesa, é dito que seus pais ficaram desapontados com seu nascimento, pois queriam um filho. Não existe nenhum registro oficial afirmando esse descontentamento. Quando Anastásia veio ao mundo, o czar Nicolau II escreveu em seu diário: “Exactamente às seis da manhã, uma pequena filha -Anastásia- nasceu. Foi tudo muito rápido e, graças a Deus, sem complicações! Por tudo ter começado e acabado enquanto todos ainda dormiam, ambos temos um sentimento de calma e solidão.”

A família Romanov. A família Romanov. Anastásia está na cadeira, ao lado do pai. Foto: Reprodução
A família Romanov. Anastásia está na cadeira, ao lado do pai. Foto: Reprodução

Contudo, apesar da calmaria que o pai descrevera no dia do seu nascimento, Anastásia era uma menina “muito travessa e engraçada“, escreveu Pierre Goulard, seu professor de francês. Ele completou: “Tinha um sentido de humor apurado e os seus comentários sarcásticos atingiam quase sempre assuntos sensíveis. Era uma criança terrível, embora os seus defeitos tendessem a ser corrigidos com a idade.

Anastásia conseguia encantar e desagradar a todos ao mesmo tempo. Era uma menina cheia de vida, risonha e falante, mas gostava de pregar peças nos empregados e não aceitava ser corrigida. Na época, muitos acreditavam que ela tentava ser uma “menina-rapaz” para agradar ao pai, uma das únicas pessoas que Anastásia respeitava completamente.

Aventuras na História · Mistério solucionado: o destino do cadáver de Anastasia Romanov
Anastásia na Finlândia, em 1908. Foto: Reprodução

Anastásia: a grã-duquesa inesquecível

Posteriormente, Anastásia diminuiu as brincadeiras de mau-gosto e comentários ácidos, mas ainda se esforçava em trazer alegria à quem estivesse por perto. Durante a Primeira Guerra Mundial, sua família fazia visitas no hospital para cuidar dos soldados feridos. Como era muito nova, não tinha a permissão de atuar como enfermeira da Cruz Vermelha. Dessa forma, ela e a irmã Maria divertiam os soldados com jogos e apresentações. Felix Dassel, que conheceu Anastásia, recordou que a grã-duquesa “ria como um esquilo” e caminhava rapidamente “como se fosse sempre aos saltinhos”.

Maria e Anastásia no Hospital de Soldados Feridos, na Rússia
Maria e Anastásia em uma visita ao Hospital. Cerca de 1915. Foto: Beinecle Library

Anastásia “teria se tornado na mais bonita das irmãs se tivesse vivido mais tempo”, escreveu a baronesa Shopie Buxhoeveden. “Tinha um cabelo bonito, olhos bonitos e vivos como se tivessem sempre um sorriso brincalhão escondido nas suas profundidades (…) Tudo isto combinado, tornava a grã-duquesa mais nova diferente de todas as irmãs“, completou.

Rasputin: vilão da vida real?

A essa altura do campeonato, você deve estar se perguntando se Rasputin, o vilão do filme, realmente existiu. E sim: o personagem é baseado em Grigori Rasputin, um monge que era extremamente próximo da família Romanov.

Rasputin era um camponês russo e staretz peregrino. Considerado um “homem santo”, muitos acreditavam que suas habilidades místicas teriam ajudado Alexei, irmão caçula de Anastásia, a se curar de seus ataques de hemofilia. As meninas o chamavam de “o nosso amigo” e compartilhavam seus segredos com ele. Essa proximidade gerou uma certa desconfiança em uma das governantas da família, Sofia Ivanovna Tyutcheva.

Grigori Rasputin - o amigo de Anastásia e suas irmãs
Grigori Rasputin: o grande amigo da família Romanov. Foto: Reprodução

A imperatriz Alexandra e suas filhas gostavam muito de Rasputin, e estavam cientes da tensão que existia entre ele e os funcionários. Com o tempo, rumores de que o místico teria seduzido mãe e filhas tomaram conta de toda a Rússia Imperial. Enfurecido, Nicolau II proibiu o homem de voltar aos aposentos da família e o expulsou de São Petersburgo. Com isso, Rasputin foi para a Palestina, onde morreu em dezembro de 1916. As mulheres da dinastia Romanov lamentaram imensamente a sua partida, de acordo com os registros de A.A. Mordvinov. “As grã-duquesas pareciam frias e visivelmente muito desconcertadas. (…) Sentaram-se todas juntas no sofá sob um silêncio intenso, como se percebessem a agitação política que estava prestes a estourar.”

Revolução Russa: o trágico fim da família Romanov

Em fevereiro de 1917, após a abdicação do Czar, Anastásia e a família foram colocados sob prisão domiciliária no Palácio de Alexandre, em Czarskoe Selo. À medida que os Bolcheviques se aproximavam, o governante provisório os enviou para Tobolsk, na Sibéria. Pouco depois dos Bolcheviques se terem apoderado da maioria da Rússia, Anastásia, a família, alguns criados e o médico da família foram mandados para a cidade mineira de Ecaterimburgo, nos Montes Urais, onde todos foram executados em dezembro.

Maria, Olga, Anastásia e Tatiana, no cativeiro em Czarkoe Selo, 1917.
Maria, Olga, Anastásia e Tatiana, no cativeiro em Czarkoe Selo, 1917. Foto: Reprodução

Ainda em Tobolsk, Anastásia e as suas irmãs, Olga e Tatiana, costuraram joias nas suas roupas. Os coletes com joias foram feitos na intenção de escondê-las de seus carrascos e dos revistadores que as aguardavam em Ecaterimburgo, onde seus pais e sua irmã Maria já as esperavam. No navio Rus, já no caminho para o novo cativeiro, as três foram assediadas sexualmente por guardas que procuravam pelas joias. Sidney Gibbes recordou ter ouvido as grã-duquesas a gritar de terror, e foi “assombrado pelo resto da vida por não poder ajudá-las.”

O fim do mistério de Anastásia

A morte de Anastásia era um mistério até 1979, quando pesquisadores escavaram a suposta vala onde os Bolcheviques enterraram sua família. Lá, eles encontraram os restos mortais de 9 pessoas – não de 11, como era esperado. De todos os corpos, que incluíam os Romanov e mais 4 empregados, estava faltando o do caçula, Alexei, e de uma das suas irmãs. Como era de se esperar, a descoberta levantou ainda mais suspeitas sobre o paradeiro de Anastásia.

Porém, em 1991, pesquisadores encontraram os restos mortais de duas pessoas, em um local próximo à vala de 1979. Os testes concluíram que os restos eram de Alexei Romanov e uma de suas irmãs – Maria ou Anastásia. A descoberta colocou um fim na teoria de que Anastásia teria escapado da execução, já que todos os corpos de sua família haviam sido identificados.

Por fim, os restos mortais de Anastásia e sua família foram enterrados em 1998 na Catedral de São Pedro e São Paulo, em São Petersburgo. Dois anos depois, em 2000, a Igreja Ortodoxa Russa canonizou os Romanov como Portadores da Paixão.

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