Até 1979, o futebol feminino era crime no Brasil

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Se hoje o futebol feminino é motivo de orgulho no Brasil – com a Marta sendo eleita a melhor jogadora do mundo seis vezes – há pouco mais de 40 anos, o cenário era outro. Até 1979, a prática entre as mulheres era crime no nosso país.

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Decreto-Lei nº 3.199

Foto: Acervo Museu do Futebol

Foi durante a Era Vargas (1930 e 1945) que a proibição começou. O artigo 54 do Decreto-Lei nº 3.199, de 14 de abril de 1941, dizia: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país.”

Apesar de o futebol não ser citado nominalmente, na época, ele já era bastante popular no Brasil e também se enquadrava na lei. Isso porque o esporte era considerado mais violento pelo contato entre atletas, e todas as justificativas dessa proibição tinham a ver com a preservação do corpo da mulher. As mulheres não podiam participar dessas atividades físicas porque isso poderia causar infertilidade. Além disso, elas eram consideradas mais “frágeis” do que os homens.

Isso não impediu que o futebol feminino fosse praticado. Sobretudo, no interior de estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, era muito comum que mulheres se reunissem para jogar escondido. No Rio de Janeiro, Carlota Resende, ou Dona Carlota, foi presa em janeiro de 1941, sob acusação de lenocínio, por ter ajudado a reunir diversas equipes de clubes femininos na cidade.

Futebol de vedetes

Vedete no Estádio do Pacaembu minutos antes da partida em 1959. Foto: Acervo Museu do Futebol

Entre 1958 e 1964, o futebol feminino virou atração. As grandes partidas nessa época não contavam com atletas ou entusiastas do esporte, mas sim com vedetes – as artistas de teatro. O decreto em vigor desde 1941 não permitia que campos oficiais e federações realizassem jogos entre mulheres. Mas, não havia nada na legislação sobre uma “partida-espetáculo-beneficente”.

Em 1959, o empresário Lover Ibaixe patrocinou o primeiro jogo entre atrizes no Estádio do Pacaembu, em São Paulo. O objetivo era arrecadar fundos para a construção do Hospital dos Atores. Esse motivo era suficiente para ludibriar a proibição. Ao colocar mulheres consideradas bonitas em campo, pretendia-se atrair justamente o público masculino. O jogo lotou o estádio e arrecadou uma quantia generosa de dinheiro. Depois, outras partidas foram organizadas e mais estados do Brasil presenciaram o futebol entre as vedetes.

Ditadura Militar

Foto: Acervo Museu do Futebol/Reprodução/Dibradoras

Em 1965, já no governo militar, o decreto-lei foi novamente publicado. Desta vez, o Conselho Nacional de Desportos (CND) citou nominalmente os esportes proibidos para as mulheres: “lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo-aquático, rugby, halterofilismo e beisebol”.

Mas, novamente, a proibição não impediu que elas resistissem e mantivessem a prática esportiva de maneira escondida. Um dos maiores exemplos de resistência desta época é o da mineira Léa Campos – a primeira árbitra de futebol profissional do mundo.

Em 1967, Léa concluiu o curso de arbitragem e não recebeu seu diploma. Quatro anos depois, ela recebeu um convite da FIFA para apitar uma partida do Campeonato Mundial Feminino no México. Contudo, a mineira recebeu um não de João Havelange, na época presidente da CBD (Confederação Brasileira de Desportos).

Ela não desistiu e foi até o presidente do Brasil, general Emílio Garrastazu Médici, que escreveu um bilhete com a autorização. Durante a coletiva de imprensa que anunciaria a aposentadoria de Pelé, Léa Campos entregou a mensagem para Havelange. O presidente da CDB, então, acabou aprovando que ela fosse ao México como árbitra.

Fim da proibição

Seleção feminina de futebol em 1991. Foto: Reprodução

Somente em 1979, a lei que proibia mulheres de jogarem futebol foi revogada no país. Nessa data, a seleção masculina já tinha três copas do mundo. Isso significou mais abertura política e conquista de novos direitos civis, mas isso ainda não era um incentivo à prática feminina.

Foi só em 1983 que a modalidade foi regulamentada e autorizada em todos os municípios do Brasil. A partir daí, era permitido competir, criar calendários, utilizar estádios e ensinar nas escolas. Também surgiram os primeiros clubes profissionais como o Radar e o Saad, no Rio de Janeiro (RJ) e em São Caetano do Sul (SP), respectivamente.

Já a primeira Copa do Mundo FIFA de Futebol Feminino aconteceu em 1991. Os homens já tinham disputado catorze edições. O tratamento na época era muito amador. O Brasil teve menos de um ano para treinar e foi eliminado logo na primeira fase, após perder jogos para os Estados Unidos e para a Suécia.

As Olimpíadas, por sua vez, só tiveram uma modalidade de futebol feminino em 1996. Os Jogos de Atlanta marcaram a estreia das mulheres em campo. Desta vez, o Brasil conquistou a quarta colocação, ficando muito próximo do pódio. A seleção brasileira ficou atrás somente dos Estados Unidos, China e Noruega.

Desigualdade

A jogadora de futebol Marta (Marta Vieira da Silva), atacante eleita melhor do mundo seis vezes pela Fifa, é a primeira mulher a entrar para o Hall da Fama do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Hoje, ainda vemos o reflexo desses quase 40 anos de proibição. Ainda há uma enorme desigualdade entre o futebol masculino e o feminino, tanto em salários, quanto em investimentos ou na visibilidade dos eventos esportivos. O desenvolvimento da prática entre as mulheres acabou prejudicado, e os homens obtiveram proporções maiores no sentido técnico e financeiro.

Mas, se agora as moças têm a oportunidade de jogar, torcer, narrar e apitar os jogos, isso se deve ao esforço insistente e à resistência de centenas de mulheres que enfrentaram políticas públicas e comentários maldosos e, mesmo assim, não desistiram.

Fonte: Globo Esporte, Torcedores.com e ESPN

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