Ed Gein: o assassino que inspirou “Psicose” e “O Massacre da Serra Elétrica”

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Ed Gein foi um dos assassinos em série mais macabros de toda a história. A forma como tirou a vida de suas vítimas foi tão cruel que inspirou não um, mas três dos maiores clássicos dos filmes de terror: “Psicose”, “O Massacre da Serra Elétrica” e “O Silêncio dos Inocentes”. Antes de entrar no mérito das produções, é preciso conhecer a brutalidade da vida real que elevou Ed Gein a um patamar jamais antes visto na história dos crimes.

Aviso: essa matéria possui conteúdos sensíveis para algumas pessoas.

Biografia: antes da carnificina

Edward Theodore Gein, mais conhecido como Ed Gein, nasceu em Las Crosse County, Wisconsin, em 27 de agosto de 1906. Ele era o segundo filho de George Phillip Gein e Augusta Wihelmine Gein. O casamento dos pais de Ed era cheio de tribulações e desentendimentos: George era alcoólatra e tinha dificuldades para manter-se empregado. Por isso, Augusta o desprezava, e os momentos em família eram sempre marcados por brigas e discussões. A família foi viver em isolamento numa fazenda da cidade de Plainfield, em Waushara County, depois que o pai de Ed vendeu a mercearia que tinha na cidade.

Ed Gein, o serial killer que inspirou o filme Psicose – Crimes Reais
Ed Gein, o serial killer que inspirou Psicose. Fotos: Reprodução

Infância e criação

Edward não tinha muitos amigos, pois deixava a fazenda apenas para ir à escola. Seus colegas de classe e professores lembravam dele como tendo comportamento estranho, como rir aleatoriamente. Para piorar a situação, sua mãe o punia sempre que ele tentava fazer novas amizades. Quando não estava estudando, ajudava nas tarefas da propriedade.

Augusta Wihelmine Gein, mãe de Ed. Foto: Reprodução

Sua mãe, Augusta, era fervorosamente religiosa e nominalmente luterana. Sua religiosidade era intensa e pregada para os filhos diariamente. Seus sermões falavam sobre a imoralidade natural do mundo, o mal da bebida e que todas as mulheres eram instrumentos do diabo. Por isso, ela era extremamente protetiva com os filhos e não permitia que eles chegassem perto de mulheres ou que fizessem amigos. Augusta também reservava um tempo de todas as tardes para ler versículos do Antigo Testamento sobre morte, assassinato e retribuição divina.

Absolutamente sozinho no mundo

Em abril de 1940, o pai de Ed morreu de falha cardíaca causada pelo seu alcoolismo, aos 66 anos. Ed e seu irmão mais velho, Henry, começaram a fazer bicos de faz-tudo e babá na cidade para ajudar a cobrir os custos de vida. Os dois irmãos eram bem-vistos pela comunidade e quase todos aceitavam os seus serviços.

Em maio de 1944, Ed e Henry estavam queimando a vegetação pantanosa da fazenda. Inesperadamente, o fogo saiu do controle dos irmãos e chamou a atenção dos bombeiros locais. Depois que apagaram o fogo, Ed relatou o desaparecimento de Henry e foi embora. A noite, uma equipe de buscas encontrou o corpo do irmão mais velho já morto por falha cardíaca e asfixia. Apesar da polícia afirmar que não haviam provas de que Ed estava envolvido na morte do irmão, muitos autores de biografias acreditam que a má relação entre Henry e Augusta pode ter estimulado os impulsos assassinos de Ed, que era devoto da mãe.

Ed Gein, o serial killer que inspirou filmes de terror
Ed Gein, o serial killer que se eternizou após inspirar filmes e séries de terror. Foto: Reprodução

Com a morte do pai e irmão mais velho, Ed agora estava sozinho com a mãe. Augusta teve um acidente vascular cerebral paralisante logo após a morte de Henry e, a partir daí, Ed dedicava todos os seus dias aos cuidados da mãe.  Um ano depois, em 1945, Augusta teve um segundo acidente vascular cerebral e sua saúde se deteriorou rapidamente. Ela faleceu em dezembro de 1945, aos 67 anos, e Ed ficou devastado. Nas palavras do autor Harold Schechter, ele “perdeu a sua única amiga e verdadeiro amor. E ele estava absolutamente sozinho no mundo”.

Primeiras influências

Desde que Augusta faleceu, Ed Gein continuou seus trabalhos na fazenda e prestando serviços na comunidade. Enlutado, deixou de usar os espaços da casa que lembravam sua mãe, incluindo as escadas e a sala de estar, deixando-os intocados. Ed limpava compulsivamente apenas essas áreas da casa – pois sentia que deveria agradar a mãe, mesmo depois de morta.

A casa de Ed Gein seria o palco de vários assassinatos macabros. Foto: Reprodução

Nesse tempo, ele se interessou em revistas de culto à morte – particularmente as que envolviam histórias de canibais ou atrocidades nazistas. Relatos de experiências feitas em campos de concentração e livros de anatomia feminina eram seus materiais favoritos. O seu hobbie principal era o mais macabro de todos: ler a sessão de obituários e escolher, dentre os mortos, o mais parecido com sua mãe. Com o tempo, Ed passou a fazer visitas noturnas no cemitério local, onde o corpo de Augusta estava enterrado.

Estranhas obsessões

Desde que sua mãe morreu, Ed estava cada vez mais obcecado pela morte e pela anatomia humana. Com isso, ele começou a desenterrar os corpos recém-enterrados no cemitério de Plainfield para levá-los até a sua casa, sob o pretexto de realizar “estudos científicos”. Em casa, Gein destrinchava os corpos e guardava alguns órgãos (sempre do sexo feminino). Posteriormente, passou a retirar a pele dos defuntos e fazia “roupas” com elas. Com esse estranho “vestuário”, vestia um velho manequim e, em noites especiais, ele mesmo vestia as peles dos cadáveres e fazia um ritual bizarro com cantorias, pulos e danças ao redor de sua casa.

Com o passar do tempo, as atividades de Ed já não pareciam tão atraentes. Depois que aprendeu tudo que achava possível, o ócio se instalou na cabeça do homem, que viria a se tornar uma ameaça para as pessoas que o rodeavam.

Os crimes de Ed Gein, o assassino carniceiro

O primeiro assassinato cometido por Ed Gein aconteceu em dezembro de 1954. Ele tirou a vida de Mary Hogan com um tiro na cabeça. O que ele fez com o cadáver de sua vítima foi inúmeras vezes mais perturbador do que a forma com a qual ele a matou. Primeiro, como de costume, ele retirou toda a pele do corpo, para criar uma de suas vestimentas. Em seguida, ele retirou a genitália de Mary, a pintou de prata e a colocou numa caixa de sapatos. Por fim, Gein separou algumas especiarias do corpo da mulher para fritá-las – como fígado, coração e cérebro. Detalhe: Mary era muito parecida com a mãe de Ed.

Não se sabe quantas pessoas Ed Gein matou até chegar na vítima que denunciaria toda a sua crueldade: Bernice Worden, a mãe de um xerife local.

Na manhã de 16 de novembro de 1957, a dona da loja de hardward de Plainfield, Bernice Worden, desapareceu. O filho de Bernice Worden, o delegado xerife Frank Worden, entrou na loja em torno de 17h e encontrou a caixa registradora aberta e manchas de sangue no chão. Por conta de um recibo assinado por Bernice, foi documentado que a última pessoa a entrar na loja aquele dia antes do desaparecimento foi Ed Gein. O Departamento de Xerife de Waushara County fez buscas na fazenda de Gein e, lá, descobriram uma atrocidade indescritível.

Ed Gein em seu primeiro julgamento, no ano de 1957. Foto: Reprodução

Bernice estava pendurada de cabeça para baixo fincada por um gancho (como os de açougue) sem cabeça e sem intestinos (posteriormente foram encontrados em uma caixa). O seu coração estava separado em um prato sob a mesa de jantar e outros órgãos estavam em pleno cozimento em uma panela. Mas isso era apenas o começo.

A coleção de horrores de Ed Gein

Posteriormente, na casa de Ed Gein, a polícia encontrou uma série de objetos macabros. Desde então, os delegados entenderam que não estavam lidando com um assassino comum. Veja:

  • Uma caixa de sapatos contendo vaginas;
  • Uma delas pintada de prata (da primeira vítima, Mary Hogan);
  • Pulseiras, poltronas, um terno, uma bolsa, uma bainha de faca, calças cadeiras, camisas, abajures e sutiãs feitos todos de pele humana;
  • Um cinto confeccionado de mamilos;
  • Vários crânios, alguns enfeitando os pés da cama e outros servindo como pratos para sopa;
  • Uma geladeira com órgãos humanos;
  • Lábios humanos dependurados em barbantes pelos corredores;
  • Máscaras feitas com faces de mulheres assassinadas, que serviam de decoração para o seu quarto;
  • Mesas feitas com ossos humanos;
  • Narizes, orelhas e órgãos espalhados pela residência;
  • Uma caixa de aveias contendo pedaços de cérebro.
Assento de cadeira feito de pele humana, encontrado na casa de Gein. Foto: Reprodução

O julgamento

O primeiro julgamento de Ed Gein iniciou em novembro de 1957, na Corte Judicial de Waushara. Gein se declarou como “não culpado” e alegou insanidade. Considerado mentalmente incapaz (e, dessa forma, inapto para ser julgado), foi conduzido ao Central State Hospital for the Criminally Insane, uma instalação médica na cidade de Waupun, em Wisconsin, uma instituição médica para criminosos com problemas patológicos.

Uma década após seu julgamento, Ed Glein foi considerado apto para responder por seus crimes. A nova solenidade se iniciou em novembro de 1968 e durou uma semana. A defesa de Gein insistiu na insanidade, enquanto a acusação declarou que ele tinha plena consciência dos crimes que praticou. Para isso, contaram com o testemunho de várias pessoas, inclusive os técnicos de laboratório que realizaram a autópsia de Bernice Worden, policiais e psiquiatras. Os depoimentos, materiais e a confissão do próprio carniceiro levaram o júri a considerá-lo culpado de assassinato em primeiro grau.

Gein concedendo entrevistas à imprensa antes de entrar no seu segundo julgamento. Foto: Reprodução

Poucos dias após o veredicto do júri, o magistrado Robert H. Gollmar proferiu a sentença. Depois que conversou com médicos e psiquiatras contratados pela Acusação e pela Defesa para estudar o caso de Gein, ele chegou a conclusão de que o homem não tinha discernimento para compreender o crime que cometeu. Dessa forma, declarou-o “não culpado por razões de insanidade”. O carniceiro foi escoltado para a mesma instituição médica em que estava antes (Central State Hospital for the Criminally Insane), sendo, após, encaminhado para o Mendota Mental Health Institute, um hospital psiquiátrico gerenciado pelo Departamento de Serviços de Saúde de Wisconsin.

Ed Gein, o paciente modelo

Ed Gein passou o resto de sua vida no Mendota Mental Health Institute, um hospital psiquiátrico gerenciado pelo Departamento de Serviços de Saúde de Wisconsin. Surpreendentemente, Ed não apresentava problemas comportamentais, sendo considerado um paciente modelo. O superintendente da instituição chegou a dizer que “se todos os nossos pacientes fossem como ele, não teríamos nenhum problema”. Embora cordial com todos os membros da equipe, algumas funcionárias se queixavam que Gein costumava olhá-las fixamente sempre que aparecessem diante dele.

Ed Gein em seu leito no Mendota Mental Health Institute, pouco antes de morrer. Foto: Reprodução

Por fim, Ed Gein morreu em julho de 1984, por conta de uma parada cardíaca e respiratória. Ele passou seus últimos anos num tratamento intensivo de câncer. Foi enterrado no cemitério de Plainfield, próximo de sua mãe, e apenas a alguns metros das sepulturas que havia violado três décadas antes para conduzir seus “estudos científicos”. Por ironia do destino, ao longo dos anos sua sepultura foi constantemente vandalizado por populares. A lápide do seu túmulo foi, enfim, também furtada.

A influência de Ed Gein no terror

Os crimes macabros de Ed Gein não caíram no esquecimento e sua história foi adaptada para inúmeros filmes de terror. Dentre eles, três grandes clássicos do gênero incorporaram diferentes elementos da mente e dos atos brutais do assassino: “Psicose” (1960), “O Massacre da Serra Elétrica” (1974) e “O Silêncio dos Inocentes” (1991). Além disso, Ed Gein teve sua história adaptada para diversas séries – como “Bates Motel” (2013) e até mesmo o personagem Bloody Face, de Asylum (2012), a segunda temporada de “American Horror Story”.

Filmes

“Psicose” é, originalmente, um romance escrito por Robert Bloch em 1959. Ele se surpreendeu com a mente de Gein depois que leu sobre as roupas feitas a partir de pele de mulheres – e a teoria por trás disso. Os psiquiatras do centro em que Ed Gein estava internado analisaram o serial killer e levantaram a hipótese de que ele teria feito isso no intuito de fingir que era sua mãe, que havia falecido na época. Foi dessa teoria que nasceu o psicopata Norman Bates, um dos personagens mais famosos da história dos filmes de terror.

Psicose: Fotos e Pôster - AdoroCinema
O poster de “Psicose”, um dos maiores clássicos entre os filmes de terror. Imagem: Reprodução

Por outro lado, o filme “O Massacre da Serra Elétrica”, a princípio, parece não incorporar os detalhes subjetivos da mente de Ed Gein. Mas, se você prestar atenção aos detalhes minuciosamente colocados por Tobe Hooper, verá que as referências são muitas.

"O Massacre da Serra Elétrica" tem várias referências sobre Ed Gein
O poster do clássico “O Massacre da Serra Elétrica”, de 1974. Imagem: Reprodução

Tudo a começar pelo nome: Leatherface. O personagem usa máscaras feitas de pele humana — seu nome, na verdade, já diz isso. Leather é couro em inglês, e face é rosto. Além disso, a assustadora decoração da casa que contém partes de corpos humanos e o possível canibalismo também entram na conta de Gein.

Por fim, em “O Silêncio dos Inocentes”, vemos em Buffalo Bill aspectos de, pelo menos, quatro serial killers: Ed Gein, Ted Bundy, Gary Heidnik e Edmund Kemper. A principal referência sobre Gein são os trajes femininos do criminoso.

Séries

A série “Bates Motel” é totalmente inspirada no romance de Bloch e no clássico de Hitchcock. O personagem principal, Norman Bates (interpretado por Freddie Highmore), tem uma série de referências escancaradas a Ed Gein: a obsessão pela mãe, os assassinatos, a repulsa às mulheres e a difícil socialização.

Os produtores de <em>Bates Motel</em> (2013) souberam retratar muito bem a insanidade de Ed Gein. Foto: Reprodução
Os produtores de Bates Motel (2013) souberam retratar muito bem a insanidade de Ed Gein. Foto: Reprodução

Em Asylum, a segunda temporada de “American Horror Story”, a história começa a partir da prisão de Kit Walker (interpretado por Evan Peters), acusado de ser o famoso Bloody Face – um assassino que matava as mulheres e arrancava a pele de cada uma delas. Ele é internado no sanatório de Briarcliff, onde sofre diversos abusos e terapias de choque. O que ninguém esperava é que Oliver Thredson (interpretado por Zachary Quinto), o calmo e inteligentíssimo psiquiatra de Kit, é o verdadeiro Bloody Face. Na série, podemos ver os móveis feitos de pele humana e a obsessão de Oliver sobre assuntos maternos.

O dócil e compreensivo psiquiatra Oliver Thredson - o verdadeiro Bloody Face de American Horror Story. Foto: Reprodução
O dócil e compreensivo psiquiatra Oliver Thredson – o verdadeiro Bloody Face de American Horror Story. Foto: Reprodução

 

E aí, você sabia que um único homem seria capaz de inspirar tantos filmes macabros? Conta pra gente nos comentários!

 

 

 

 

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