“Irmãos necrófilos”: os serial killers brasileiros que escaparam da polícia durante um ano

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As buscas por Lázaro Barbosa de Souza, de 32 anos, duraram 20 dias. Isso foi o suficiente para espalhar o terror entre os moradores de Goiás e do Distrito Federal e fazer a população questionar a eficiência da força tarefa que tentava capturar o criminoso.

O caso acabou trazendo à tona histórias de outros “serial killers” brasileiros. Entre eles, estão os “irmãos necrófilos”, Ibraim e Pedro Henrique de Oliveira, que conseguiram fugir da polícia durante um ano. A caçada teve início em fevereiro de 1995 e só chegou ao fim em dezembro daquele ano, quando Ibraim foi morto a tiros por um agente.

Foto: ACERVO REVISTA MANCHETE/BIBLIOTECA NACIONAL

Ibraim e Henrique de Oliveira tinham entre 19 e 20 anos quando aterrorizaram a zona rural de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Entre 1991 e 1995, eles mataram oito pessoas brutalmente e praticaram necrofilia – sexo com cadáver – com os corpos das vítimas.

O modus operandi dos irmãos era da seguinte forma: atacavam sobretudo mulheres negras, quase sempre na parte da tarde, em regiões próximas à mata. Elas eram mortas asfixiadas ou com facadas e foices. Os dois evitavam machucar o corpo das vítimas do pescoço para baixo, para preservá-los para a necrofilia, e também levavam itens pessoais, como calcinhas, como “lembranças” de cada mulher assassinada.

Ibraim e Henrique circulavam e viviam em uma área de 300 mil metros quadrados de Mata Atlântica entre os municípios de Sumidouro, Riograndina e Nova Friburgo. Os irmãos conheciam a mata como ninguém e, por isso, conseguiam aparecer e desaparecer com facilidade.

Infância

Pouco se sabe sobre a trajetória dos irmãos necrófilos. Os moradores mais antigos da região relatam que eles vinham de uma família miserável e viviam em ambiente rígido de trabalho braçal. O pai dos dois, Brás de Oliveira, era um alcoólatra que agredia a mulher, Maria Luiza.

O homem também batia nos filhos e obrigava Ibraim e Henrique a passar noites na mata sem mantimentos. Ibraim era o filho mais velho, seguido por Henrique e os irmãos Jaílton, de 17 anos, e Márcia, a caçula, de 16. Nenhum dos quatro jamais saiu da região em que nasceram e sequer aprenderam a ler ou a escrever.

Desde a infância, Ibraim já causava medo na vizinhança por matar animais e fazer sexo com as carcaças.

Primeiros crimes

Os primeiros crimes cometidos por Ibraim e Henrique de Oliveira aconteceram em 1991. A primeira vítima foi Eliana Macedo Xavier, de 21 anos. A jovem estava desaparecida há uma semana quando seu corpo foi encontrado em 15 de fevereiro.

Eliana foi estrangulada por um fio de arame e seu corpo foi vítima de necrofilia. Ao lado do cadáver, havia uma certidão de nascimento desgastada, um crucifixo de madeira preta, uma carteira de veludo preto e sua calcinha azul rasgada.

O primeiro crime dos irmãos necrófilos. Foto: Jornal A Voz da Serra/Reprodução/VICE

Sete meses depois, em 11 de setembro, outro crime abalou a comunidade rural de Nova Friburgo. A menina Norma Cláudia de Araújo, de 11 anos, foi encontrada morta nas mesmas condições de Eliana: sem roupa, um arame em volta do pescoço e sinais de abuso sexual post-mortem.

Em depoimento à polícia, Ibraim, então com 16 anos, confessou ter assassinado Norma, mas disse que agiu sozinho, sem a ajuda de Henrique. Ele afirmou ter matado e assassinado a criança porque ela teria dito que “não gostava de preto”. O garoto negou ter matado a mulher de 21 anos.

Ibraim foi julgado nos termos do recém promulgado Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e ficou internado no Instituto Padre Rafael, na Ilha do Governador, RJ, até completar 18 anos, quando foi solto pela Justiça. Lá, ele teria sofrido abusos e maus-tratos. Quando saiu, teria se tornado pior do que já era.

O terror recomeça

Ibraim voltou para casa no final de 1994, mas causava medo até mesmo em sua própria família. A mãe dele, Maria Luiza, revelou em entrevista ao Jornal do Brasil, que já tinha sido estuprada pelo filho mesmo antes de sua prisão. O mesmo aconteceu com a irmã do garoto, Márcia.

A caçula, inclusive, engravidou de Henrique, mas abortou. Na mesma reportagem ao Jornal do Brasil, Márcia disse que Ibraim chegou a cavar uma cova para enterrá-la.

Menos de cinco meses após a soltura de Ibraim, os crimes recomeçaram. Era 27 de fevereiro de 1995, o casal João Carlos Maria da Rocha, de 30 anos, e Elizete Ferreira Lima, de 39, foi atacado enquanto tomava banho em uma cachoeira de Janela das Andorinhas, em Nova Friburgo.

João Carlos foi morto a pedradas, e seu corpo sem vida, estuprado. A esposa, Elizete, foi arrastada pelos dois pra dentro da mata e violentada. Em um golpe de sorte, quando os irmãos se distraíram, ela conseguiu escapar, se jogando de um barranco.

No hospital, a descrição feita por Elizete confirmou as suspeitas da polícia e da população. Revoltados, alguns moradores da região chegaram a incendiar a casa da família Oliveira. Com medo, o pai, a mãe e os filhos mais novos teriam fugido da cidade.

Depois da morte de João Carlos Maria da Rocha e a tentativa de homicídio de Elizete Ferreira de Lima, Ibraim e Henrique passaram a se esconder no meio da mata. Eles se alimentavam das árvores frutíferas e de animais crus. Não cozinhavam para não fazer fumaça.

Foto: A Voz da Serra/Reprodução/VICE

Outros crimes

Em 1º de abril de 1995, os irmãos necrófilos fizeram mais uma vítima: sua própria tia, Vera Lúcia Damasceno, de 35 anos. Alguns moradores suspeitavam que ela levava mantimentos para os sobrinhos durante a fuga. Vera foi morta a facadas e também foi estuprada.

Entre um assassinato e outro, os irmãos invadiam sítios e chácaras para roubar comida, saqueavam as roupas no varal das casas, percorriam rios e córregos para não deixar rastros e dormiam em grutas e cavernas ou improvisavam acampamentos no meio da mata.

Na época, o Rio de Janeiro já tinha tiroteios entre policiais e facções criminosas nas periferias. A polícia estava desfalcada, o que corroborou coma demora da captura dos irmãos por parte do 11º Batalhão. Soma-se a isso os baixos salários e a falta de equipamentos e de infraestrutura.

A região ainda tinha estradas em péssimo estado, que dificultavam o acesso ao local. Para piorar, não havia sinal de rádio, o que impedia que os policiais adentrassem mais ainda na mata fechada. Os uniformes também não eram muito adequados – os agentes voltavam sempre empesteados de carrapatos.

No dia 17 de maio, outra mulher foi assassinada por Ibraim e Henrique: Odete de Carvalho, de 56 anos. Ela foi morta por golpes de foice e abusada na própria casa.

O então secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, general da reserva Nilton Cerqueira, decidiu acionar o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) para ajudar nas buscas.

Foto: A Voz da Serra/Reproução/VICE

Pouco tempo depois, em 27 de julho, Iria Moraes Ornellas, de 67 anos, foi enforcada com a própria saia e estuprada na cozinha da sua residência. Os irmãos roubaram mantimentos e todas as calcinhas da vítima como “troféu”.

Justiça com as próprias mãos

A população já estava cansada do desespero causado pelos dois irmãos. Mulheres e crianças evitavam sair sozinhas nas ruas. Enquanto isso, moradores da região começavam a andar em grupos, armados com facas e revólveres. Estima-se que 70% das famílias abandonaram suas casas com medo de se tornarem vítimas dos assassinos.

Em setembro, por muito pouco, uma jovem não virou estatística dos criminosos. Na hora do ataque, quando Ibraim tentou invadir sua casa, Márcia Cristina de Melo, de 18 anos, conseguiu atirar contra a porta e espantar o invasor.

Essas aparições dos irmãos necrófilos colaboravam para o aumento de relatos sobrenaturais sobre eles. O comportamento dos dois também era tido como animalesco. Alguns relatos dizem que Ibraim andava como um animal, correndo sobre os membros superiores e inferiores.

Foto: A Voz da Serra/Reprodução/VICE

“Eles têm a oração de São Cipriano, corpo fechado e outras crenças”, disse um grupo de moradores ao jornal A Voz da Serra, na época. “Eles só aparecem quando é lua cheia, tendo um trato com o demo, ficam invisíveis e podem sumir na frente de qualquer um, seja dia claro ou noite. Eles carregam uma oração e como também são filhos da natureza, qualquer ferimento eles curam de forma instantânea, utilizando terra e água. Eles têm um trato de matar as mulheres e entregar a alma delas para o Demo”, completou.

Trotes atrapalhavam as buscas

O último assassinato ocorreu em 18 de novembro de 1995. Maria Dorcileia Faltz, de 39 anos, foi asfixiada com o próprio sutiã e estuprada após a morte. Ela estava grávida de sete meses e teve seus órgãos genitais mutilados. Seu filho mais velho, Adriano, de apenas 9 anos, foi coberto de pauladas e morreu no dia seguinte no hospital.

Os homicídios causaram revolta na população de Nova Friburgo. Na mesma semana, duas mil pessoas fizeram um protesto e seguiram o caixão de Dorcileia, carregado pelo marido dela e por alguns homens. Nesta altura, os crimes dos irmãos necrófilos ganharam projeção nacional.

O então prefeito da cidade, Heródoto Bento de Mello chegou a oferecer uma recompensa de R$ 5 mil para quem ajudasse a polícia a localizar os assassinos. Nisso, trotes e informações falsas atrapalhavam as buscas pela polícia. Com a atenção nacional do caso, mais 200 policiais do BOPE foram enviados para o caso.

Fim das buscas

A força-tarefa para capturar os irmãos necrófilos chegou ao fim no dia 16 de dezembro de 1995. A essa altura, cerca de 700 homens participavam da operação: 300 da Polícia Militar, 300 do Bope e 100 voluntários.

Naquele dia, Ibraim foi avistado perto de um sítio em Riograndina pelo lavrador César de Araújo Pinto, de 46 anos. Pinto avisou as autoridades e entrou na mata atrás do criminoso. Quando Ibraim estava prestes a atacá-lo, foi atingido com cinco tiros do capitão Fernando Príncipe Martins, do Bope.

Mesmo assim, ele conseguiu fugir para o mato. Foi encontrado morto duas horas depois. O paradeiro de Henrique, no entanto, era desconhecido.

Foto: A Voz da Serra/Reprodução/VICE

Nas horas seguintes à morte de Ibraim, a polícia precisou ser ágil. Os moradores da vizinhança queriam invadir o IML atrás do corpo. Ele foi enterrado dias depois como indigente no cemitério público Esperança, em Itaboraí. Nenhum familiar compareceu ao enterro.

Meses depois Henrique se entregou à Justiça, no dia 17 de junho de 1996. Segundo jornais da época, ele se apresentou à promotora responsável pelo caso, Elizabeth Carneiro de Lima, alegando inocência. Foi condenado por júri popular, no dia 1º de setembro de 2000, a 34 anos de prisão.

Alguns relatos dizem que Henrique é inocente e quem cometeu todos os crimes foi o irmão, Ibraim. Mas isso não foi confirmado pelas autoridades. Henrique foi solto 6 anos depois e acabou voltando à prisão por envolvimento com tráfico de drogas. Foi condenado a 7 anos de prisão e cumpre pena até hoje em Maricá, no Rio de Janeiro.

Semelhanças com o caso Lázaro

Se a busca por Lázaro Barbosa de Souza foi difícil hoje, com todas as tecnologias que temos, imagine 26 anos atrás… Em entrevista à BBC, o presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF), Marcos Camargo, afirmou que capturar um fugitivo agora é mais fácil do que era há 30 anos.

Em 1995, quando os irmãos necrófilos agiam em Nova Friburgo, ainda não existiam drones. Os dispositivos são equipados com sensores de calor, termômetros infravermelhos ou câmeras de longo alcance e de altíssima resolução que ajudam a rastrear os fugitivos.

Naquela época, helicópteros barulhentos denunciavam a presença dos agentes a quilômetros de distância. Além disso, as análises de DNA na década de 1990 ainda estavam em seus primórdios. Elas são fundamentais hoje para comprovar a passagem dos criminosos por determinadas rotas.

Fonte: BBC e VICE

E aí? Conta pra gente: você já era nascido em 1995, quando os irmãos necrófilos agiam? Se sim, você se lembrava deste caso?

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