Jovita Feitosa: a mulher que fingiu ser homem para ir à Guerra do Paraguai

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No filme Mulan (1998), uma jovem chinesa se finge de homem e entra para o exército para impedir que o pai doente seja chamado para a guerra. Muito tempo antes do lançamento da animação da Disney, nós tivemos uma história parecida aqui no Brasil. Jovita Feitosa se vestiu como o sexo oposto para lutar na Guerra do Paraguai (1864-1870).

Foi assim que a jovem cearense virou heroína nacional e foi chamada de Joana D’Arc brasileira – uma referência à heroína francesa da Guerra dos Cem Anos (1337-1453), que também cortou o cabelo e se vestiu de homem para lutar. Era homenageada em peças de teatro, poesias e notícias de jornais.

Jovita nunca chegou a ir, de fato, para o conflito. Ela foi rejeitada pelo Ministério da Guerra antes que pudesse colocar os pés no campo de batalha. Mas a história da brasileira está longe de ter um final feliz como o de Mulan. Rejeitada pelo pai, ela foi impedida de voltar para casa e acabou se tornando uma prostituta. Depois, se apaixonou por um engenheiro galês e se matou após uma desilusão amorosa.

Retrato de Jovita no Exército, em 1865. Foto: Divulgação/Fundação Joaquim Nabuco

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Decidida a ir à Guerra do Paraguai

A Guerra do Paraguai completava seis meses em junho de 1865 quando Jovita Feitosa, então com 17 anos, decidiu se alistar no Exército. Além das mortes, a jovem ficou revoltada ao ouvir histórias de brasileiras estupradas por soldados paraguaios.

Ela nasceu em Tauá, no Ceará. Mas morava em Jaicós, no Piauí, quando resolveu ir até Teresina para se alistar nas forças armadas. Logo que expôs a ideia, Jovita foi criticada, uma vez que “uma mulher não poderia ser aceita no Exército”.

Foi aí que ela decidiu que fingiria ser um homem. Cortou os cabelos com uma faca, atou os seios com uma cinta, se vestiu e se apresentou. De início, conseguiu ser aceita, mas a mentira durou pouco.

Mentira tem perna curta

Logo que teve sua ficha carimbada, Jovita Feitosa foi encaminhada para o Corpo dos Voluntários da Pátria, seção do Exército que juntava voluntários para a Guerra do Paraguai.

Um dia, no entanto, a jovem foi descoberta por uma mulher que notou suas orelhas furadas. Desconfiada, apalpou o corpo do suposto soldado e percebeu os seios escondidos nas roupas. Assim, Jovita foi levada à delegacia.

Lá, a cearense não escondeu sua frustração. O delegado, então, percebeu que ela “tinha disposição para aprender o necessário até para matar o inimigo”, segundo o que foi registrado no interrogatório. Por isso, o homem decidiu lhe conceder o posto de sargento. Mas isso também não duraria muito…

Jovita Feitosa recebeu um “não”

Foto: Divulgação

Jovita então embarcou com os Voluntários da Pátria para o Sul do país, a caminho da Guerra do Paraguai. Por onde passava, ela era ovacionada. Recebeu presentes, foi homenageada em peças de teatro, estampou jornais e inspirou poesias. O conto de fadas, no entanto, acabou dias depois.

Quando estava no Rio de Janeiro, a jovem recebeu uma carta do Ministério da Guerra que a destituía do posto militar. Segundo as autoridades, não havia “disposição alguma nas leis e regulamentos militares que permita a mulheres a terem praça nos corpos do Exército”.

Em contrapartida, ela poderia “prestar os serviços compatíveis com a natureza do seu sexo” durante a guerra. Assim, foi convidada a trabalhar como enfermeira. Jovita recusou a proposta e decidiu voltar para o Ceará.

Suicídio

De volta a sua casa, Jovita Feitosa procurou pelo pai. Mas o homem nem quis saber da filha. Sozinha e desamparada, ela decidiu retornar ao Rio de Janeiro. Na capital fluminense, acabou virando uma prostituta para sobreviver.

Jovita deixou as ruas quando se apaixonou por um engenheiro galês, que trabalhava na companhia de esgotos municipal, chamado William Noot. Com ele, tinha planos de casar e formar uma família. Mas tudo mudou na manhã do dia 9 de outubro de 1867.

Naquele dia, ela recebeu uma carta do amado dizendo que seu contrato de trabalho havia terminado e ele estava voltando para o País de Gales. Assim, foi até a casa de Noot para confirmar a informação, mas ele já tinha partido.

Mais tarde, Jovita foi encontrada morta, aos 19 anos, no quarto da casa do homem, com um punhal cravado em seu peito. Do lado do corpo, havia um bilhete que dizia: “Não culpem a minha morte a pessoa alguma. Fui eu quem me matei. A causa só Deus sabe”.

Mesmo sem ter ido para a Guerra do Paraguai, em 2018, Jovita Feitosa foi incluída no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”, que homenageia os brasileiros que entraram para a história nacional. Ela é apenas uma das noves mulheres citadas no documento.

Fonte: Universa

E aí? Você já tinha ouvido falar sobre Jovita Feitosa? O que achou sobre a história dela? Conta pra gente pelos comentários!

 

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