Linguiça de carne humana? Os crimes da rua do Arvoredo

Compartilhe

Já ouviu falar da febre de Kuru? O termo significa “tremendo de febre e frio” e ficou conhecido na década de 1950, quando D. Carleton Gadjusek realizou pesquisas com indivíduos de uma tribo de nativos em Nova Guiné. Ele descobriu que a causa do surto de febre e falecimentos no local acontecia devido ao canibalismo. As pessoas da tribo consumiam o cérebro de entes falecidos para absorver sua sabedoria, e o resultado disso foi um surto de mortes, sempre antecedidas por uma febre intensa.

Porém, mais chocante que descobrir os efeitos do canibalismo no corpo humano é saber que, no Brasil dos anos 1800, em Porto Alegre, um casal de criminosos praticava – e vendia – o canibalismo sem nenhum tipo de arrependimento.  A minissérie “A Febre de Kuru”, distribuído pela Orelo, conta a história macabra dos crimes da rua do Arvoredo – e é sobre esse caso que vamos falar!

Os crimes da rua do Arvoredo

O ano era 1963. Porto Alegre era uma capital como qualquer outra: escravocrata, cheia de imigrantes europeus e com uma promessa de crescimento sem fim. O que os seus habitantes não esperavam é que a cidade seria o palco de um dos crimes mais famosos do Brasil.

José Ramos

Tudo começa com a história de José Ramos. Após sua família se refugiar em Santa Catarina com o fim da Revolução Farroupilha, Ramos viveu momentos intensos junto à sua mãe, por conta do temperamento violento do pai. Um dia, durante uma discussão, Ramos esfaqueou e matou o próprio pai e, por conta disso, se refugiou em Porto Alegre. Lá, ele se tornou inspetor de polícia da cidade de Porto Alegre, onde comprou uma casa na rua do Arvoredo. Essa casa pertencia ao açougueiro Carlos Claussner, que era amigo de Ramos.

Por volta de 1862, Ramos foi flagrado tentando degolar um preso na cadeia de Porto Alegre. Por isso, as autoridades locais o afastaram do cargo de inspetor. Porém, sua amizade com Dario Callado, que acumulava as funções de Chefe da Polícia e Juiz de Direito, garantiu que ele continuasse na delegacia, desta vez, como informante da polícia.

Catarina Palse

Outra peça chave da história dos crimes da rua do Arvoredo é a dona Catarina Palse, esposa – e cúmplice – de José Ramos. Catarina nasceu na Hungria e perdeu toda a sua família na revolução Húngara. Quando tinha apenas 15 anos, se casou Peter Palse, e ambos decidiram se mudar para o Brasil. Porém, a morte de Peter durante a viagem fez com que Catarina embarcasse em Porto Alegre sozinha, aos 20 anos. Assim que pisou nas terras sulistas, Catarina conheceu José Ramos, que foi encarregado de ajudá-la com a mudança e com o enterro de Peter.

Ramos e Catarina frequentavam os mesmos grupos de amigos da elite e tinham as mesmas atividades:  rezavam na Igreja, jogavam e iam para o teatro. Depois de muitas investidas, Ramos finalmente conquistou Catarina e os dois passaram a morar juntos na rua do Arvoredo. Anos mais tarde, cometeriam crimes inimagináveis e seriam conhecidos como o casal mais macabro da história do país.

Carlos Claussner, o açougueiro

Além da dupla canibal, os crimes da rua do arvoredo possuem uma terceira pessoa envolvida: o açougueiro Carlos Claussner. De origem alemã, ele tinha o seu negócio atrás da Igreja Nossa Senhora das Dores. Claussner era um homem quieto e solitário, não só pelas barreiras comunicacionais, mas também por sua aparência assustadora  e pouca abertura para amizades.

Depois de vender a casa para Ramos, que falava alemão, Claussner finalmente teve a oportunidade de ter um amigo. Para além da língua, ambos compartilhavam interesses um tanto quanto macabros: gostavam de falar sobre assassinatos, degolar animais e machucar pessoas.

Linguiça de carne humana?

A matança da rua do Arvoredo começou em agosto de 1836. Uma sequência de desaparecimentos começou a assustar os habitantes de Porto Alegre, que atrelavam os acontecimentos aos escravos rebeldes. Eles jamais desconfiariam que José Ramos e sua companheira, Catarina, eram os verdadeiros responsáveis. O casal estava passando por dificuldades financeiras e passou a estudar formas de aplicar golpes em recém-chegados na terra sulista. Ramos aproveitou a oportunidade para saciar suas mais íntimas vontades de degolar pessoas.

modus operandi do casal era o seguinte: nos espaços públicos que frequentavam, eles escolhiam sua potencial vítima. Como Catarina tinha dificuldades com o português, a preferência era por imigrantes europeus. Em seguida, Catarina seduzia a vítima e marcava um encontro com ela no famoso Beco da Ópera. De lá, eles iam para a casa na rua do Arvoredo, onde Ramos roubava os pertences de valor das vítimas e, depois disso, as degolava, esquartejava e tirava a sua carne.

Claussner, o açougueiro amigo de Ramos, sabia dos crimes do casal e foi quem sugeriu que a carne das vítimas fosse transformada em linguiça, como forma de acobertar quaisquer vestígios do ato. Não contente em ser cúmplice do crime macabro, Claussner ainda vendia as linguiças de carne humana em seu açougue.

O fim de Claussner

Com o número de desparecimentos aumentando, os moradores de Porto Alegre começaram a pressionar as autoridades da cidade. Foi aí que Claussner decidiu fugir para o Uruguai – foi o que disse Ramos aos clientes do açougueiro quando todos notaram a sua ausência. Mais tarde, foi descoberto que Claussner estava morto e enterrado no quintal da casa do casal, que assumiu as suas posses.

A resolução dos crimes

Foi só no ano seguinte, em 1864, que a investigação dos sumiços repentinos na cidade começou a se desenvolver. Isso porque dois homens desapareceram no mesmo período: o  caixeiro-viajante José Ignacio de Souza Ávila e o mercador Januário Martins Ramos da Silva. O que chamou a atenção da polícia foi o fato de ambos os homens terem sido vistos pela última vez na rua do Arvoredo, na casa de Ramos e Catarina.

Convidado para depor na delegacia, Ramos disse que ofereceu a casa como pousada aos dois homens, que viajaram para uma cidade vizinha. Não contente com as declarações do mais novo açougueiro do pedaço, o delegado foi até a casa e encontrou inúmeros vestígios de um crime que parecia extremamente macabro. Para além das provas sangrentas, a polícia encontrou vários pertences pessoais de todos os desaparecidos muito bem conservados: Ramos “colecionava” lembranças de seus assassinatos, como sourvenirs.

O corpo de Carlos Claussner foi descoberto alguns dias depois que a investigação começou. Ramos foi condenado a prisão perpétua – sua pena, que antes era a de morte, foi atenuada por conta da sua amizade com o delegado Dario Callado. Catarina, por sua vez, foi condenada a 13 anos de prisão e cumpriu sua pena integralmente, sendo libertada em 1891, aos 54 anos.

A histórica rua do Arvoredo: repercussão internacional

Apesar da mídia de Porto Alegre ter evitado falar sobre o caso, para não atrair impressões negativas, a repercussão internacional do caso tornou a rua do Arvoredo um dos ícones mais macabros da história do Brasil. Na Europa, por exemplo, comentava-se tanto sobre os crimes que até mesmo Charles Darwin, o pai do Evolucionismo, teceu comentários sobre o crime, escrevendo em seu caderno de anotações: “Existe um chacal adormecido em todo homem?”.

O crime inspirou várias obras literárias, como “O Maior Crime da Terra – O Açougue Humano da Rua do Arvoredo”, do historiador Décio Freitas, e o romance “Canibais: Paixão e Morte na Rua do Arvoredo”, do escritor David Coimbra. Ele também foi adaptado para as telinhas, tendo sido um episódio especial do programa Linha Direta, da Rede Globo.

Neste ano, a plataforma de áudio Orelo está produzindo a minissérie “A febre de Kuru”. O elenco conta com Cleo como Catarina Palse, além de outros nomes de peso como Silvero Pereira, Reginaldo Santos e Negra Li.

 

E aí, você já conhecia os crimes da rua do ArvoredoDeixe nos comentários!

 

 

 

 

Comentários
Posts Relacionados