Lucas Terra: 20 anos de um assassinato perverso que marcou a história da Bahia

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Este ano, a morte do adolescente Lucas Terra completou 20 anos. Lucas foi estuprado e queimado vivo por três homens na cidade de Salvador, capital da Bahia. Hoje, vamos relembrar o crime que chocou os brasileiros em 2001.

Quem foi Lucas Terra?

Lucas Vargas Terra nasceu no dia 26 de outubro de 1986, na capital baiana. Filho de Marion Terra e José Carlos Terra, Lucas viveu a maior parte da vida no Rio de Janeiro. De acordo com Marion, o filho dizia ter vocação para ajudar pessoas e queria fazer isso por meio da Medicina. O altruísmo de Lucas era tanto que ele passou a visitar a comunidade da Santa Cruz (RJ), onde ficou conhecido como “Anjo de Santa Cruz”.

Lucas Terra era um jovem bom e altruísta, segundo os familiares. Foto: Reprodução

A religião era algo muito importante na vida de Lucas. O jovem era muito religioso e e chegava a arriscar sua vida para pregar o evangelho em locais marginalizados do Rio de Janeiro. Sendo assim, Lucas seguia a vida rumo a dois grandes sonhos: se tornar médico e uma autoridade na Igreja, como pastor ou bispo. Porém, todos os sonhos de Lucas foram interrompidos de forma brutal quando ele tinha apenas 14 anos, dias antes de embarcar rumo à Itália com o pai, onde sua mãe, Marion, os esperava.

O desaparecimento

Na noite de 21 de março de 2001, Lucas ligou de um telefone público para seu pai, José Carlos Terra. O menino avisou que estava junto do pastor Silvio Roberto Galiza e que, devido ao horário, dormiria na Igreja, localizada no bairro do Rio Vermelho.

No dia seguinte, o garoto não voltou para casa. Durante as buscas, o pastor contou versões contraditórias sobre quando foi a última vez que viu Lucas. De acordo com o promotor que investigou o caso, Davi Gallo, muitas informações falsas “desfocaram” as investigações.

Entretanto, no dia seguinte,23, encontraram os restos mortais de um corpo dentro de um caixote queimado, num terreno baldio. A polícia encaminhou o material ao Instituto Médico Legal (IML) e o resultado do exame de DNA só chegou 43 dias depois.

O corpo

O corpo de Lucas Terra foi identificado a partir de mechas do cabelo e partes da roupa que ficaram intactos. O laudo teve a confirmação depois de uma perícia policial. Também foi revelado que o garoto sofreu uma tentativa de asfixia. Porém, o grau de carbonização do jovem impediu que fosse constatado uma causa da morte e se Lucas sofreu ou não uma tentativa de abuso sexual. Foi justamente esse ponto que levou o promotor a crer que “certamente houve ato de violência sexual”.

O corpo de Lucas foi encontrado queimado e com vestígios de abuso sexual. Foto: Reprodução

Além disso, a perícia encontrou vestígios de tecidos semelhantes aos encontrados na Igreja do Rio Vermelho. Esse fator ligou o crime ao pastor e a Igreja.

Antecedentes do crime

Como falamos, Lucas era um garoto muito religioso. Por isso, era um membro ativo da Igreja na qual Galiza atuava como pastor. Algumas pessoas que conviviam com Lucas e o pastor diziam que Galiza teria ficado obcecado pelo garoto. As testemunhas ainda afirmaram que o pastor tinha um comportamento dominador sobre o menino.

Silvio também se incomodava quando via Lucas interagindo com garotas. O ciúmes era tanto que, sempre que possível, o convidava para dormir na Igreja com outros garotos. Esse fator só ficou conhecido por José Carlos Terra após o assassinato de Lucas.

Silvio Galiza, o acusado de matar Lucas, estudou Direito para entender o processo. Foto: Reprodução

Os superiores de Galiza ficaram furiosos após descobrirem que, durante essas “noites de meninos”, ele dormia com Lucas na mesma cama – enquanto o resto dos garotos ficava em outro cômodo. Com isso, as autoridades da Igreja transferiram o pastor para outra instituição, o que não o impediu de visitar a Igreja que o menino frequentava. A essa altura, Silvio já havia sido expulso de outra comunidade e tinha ganhado o apelido de “O Secretário do Diabo”.

A perseguição contra a verdade

As testemunhas que depuseram contra Galiza sofreram ameaças de outros membros da igreja. A testemunha que era a namorada de Lucas disse que sofreu perseguições, humilhações e, por fim, a expulsão da Igreja.

O bispo João Leite ordenou que membros da Igreja ameaçassem e perseguissem a equipe de reportagem do jornal A Tarde. O bispo acionou seus seguranças, impedindo que outros membros da igreja concedessem entrevistas para os jornalistas. José Carlos, o pai de Lucas, também foi ameaçado. Por fim, ele teve de pedir ajuda ao Ministério Público.

Protestos e condenação

O inquérito contra Galiza só foi concluído em outubro de 2001, sete meses após o assassinato, quando o pastor finalmente foi acusado pela morte do jovem. Entretanto, a polícia só decretou sua prisão depois que Carlos Terra acampou na porta do Ministério Público de Salvador.

Ministério Público de Salvador. Foto: Reprodução

Os pais de Lucas recorreram a ONGs de defesa dos Direitos Humanos e o Ministério da Justiça. José Carlos foi entregar uma carta ao escritório da ONU (Organização das Nações Unidas) na Suíça. Nela, o pai de Lucas questionava a demora do julgamento. Além disso, ele pedia a investigação da origem dos recursos financeiros de Silvio Galiza. De acordo com José Carlos, não fazia sentido Silvio ter a defesa de um dos advogados mais caros do Brasil, sendo que ele morava na periferia. Por fim, esses protestos culminaram com a marcação do primeiro julgamento, em junho de 2004

A condenação de Silvio Galiza

Com cinco testemunhas contra o pastor, o júri considerou o crime triplamente qualificado e ainda aceitou a tese de que o réu cometeu abuso sexual, matou e ateou fogo contra o corpo da vítima.

Em entrevista ao Linha Direta em 2006, o pastor alegou inocência e acusou outros três membros da Igreja de envolvimento no caso. São eles: o bispo Fernando Aparecido da Silva, o pastor Joel Miranda Macedo e o segurança dos dois, Luis Claudio.

O Linha Direta falou sobre o caso de Lucas Terra, em 2006
O Linha Direta falou sobre o caso de Lucas Terra, em 2006. Foto: Reprodução

Segundo ele, Lucas teria morrido por contar a ele que viu Joel Miranda e Fernando Aparecido em um ato sexual. A declaração foi aceita pela promotoria. O advogado da defesa disse que a denúncia contra seus clientes seria uma estratégia de Galiza, após Aparecido e Miranda o afastarem “quando ficou constatado que o mesmo (Silvio) estaria levando garotos para dormir na mesma cama que ele, na igreja do Rio Vermelho, em Salvador.”

Mais dois processos

Em 2008, foi aberto um processo contra Fernando Aparecido da Silva, que ficou preso, e Joel Miranda Macedo, que continuou foragido. Dezoito meses após o início do processo eles receberam um habeas-corpus concedido pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF).

A juíza Gelzi Almeida alegou falta de provas e, assim, inocentou Fernando Aparecido da Silva e Joel Miranda Macedo em novembro de 2013. Após a família de Lucas recorrer da decisão, em setembro de 2015 Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) julgou o Recurso de Apelação. Os desembargadores decidiram por unanimidade que Joel Miranda Macedo e Fernando Aparecido da Silva fossem a júri popular.

Joel Miranda Macedo e Fernando Aparecido da Silva aguardam o júri popular. Foto: Reprodução

Após a defesa dos dois acusados recorrer, o ministro Ricardo Lewandowski, do STF, anulou a decisão do Tribunal de Justiça da Bahia em novembro de 2018. Fazendo parte da ação da acusação, o Ministério Público da Bahia disse que a Procuradoria Geral da República (PGR) iria recorrer da decisão. Carlos Terra fez campanha pedindo julgamento pelo júri popular, até sua morte em fevereiro de 2019. Em sessão virtual, Lewandowski votou contra novamente em março de 2019. A ministra Cármen Lúcia pediu vista, impedindo que os pastores fossem a júri popular naquele momento.

Por fim, em último recurso, o STF decidiu em setembro de 2019 que os pastores da igreja Universal vão a júri popular.

Consequências para a Igreja

Em outubro de 2007, o Superior Tribunal de Justiça, mantendo a decisão da 2.ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça (TJ) da Bahia, de 14 de março, determinou que a Igreja Universal do Reino de Deus indenizasse à família de Lucas em um milhão de reais, por danos morais.

Marion, a mãe de Lucas, nunca deixou de lutar pela justiça. Foto: Reprodução/UOL

A defesa da Igreja contestou a decisão, alegando que o pastor não estava em horário de trabalho durante o crime. Porém, o Superior Tribunal Justiça da Bahia manteve a decisão em favor da promotoria. Esta, por sua vez, alegou que o pastor pediu que Lucas ficasse mais tempo na Igreja. Com isso, em dezembro de 2008, com juros e correção monetária, o valor da multa era de dois milhões de reais. Por fim, Universal pagou o valor à família de Lucas Terra.

Últimas notícias

Hoje em dia, Silvio Galiza está em liberdade condicional desde 2012, após ter cumprido 7 anos de prisão. Tanto ele quanto Fernando Aparecido da Silva aguardam o júri popular. De acordo com o Tribunal de Justiça da Bahia, o júri ainda não tem data marcada por conta da pandemia.

José Carlos Terra, o pai de Lucas, morreu em fevereiro de 2019, aos 65 anos. José faleceu devido a uma parada respiratória decorrente de uma cirrose hepática, diagnosticada um ano antes. Ele chegou a escrever, junto com a esposa, um livro sobre o caso. No livro “Traído pela Obediência”, José conta sua jornada para aceitar a morte do filho, ao mesmo tempo em que lutava pela justiça.

O livro que Marion e José Carlos Terra escreveram sobre o caso do filho, Lucas Terra. Foto: Reprodução
O livro que Marion e José Carlos Terra escreveram sobre o caso do filho, Lucas Terra. Foto: Reprodução

A mãe de Lucas, Marion, disse que o marido teve o estado de saúde agravado em novembro de 2019. Na época, José soube que a decisão que indicou o envolvimento do bispo Fernando Aparecido da Silva na morte do filho foi anulada pelo Ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), por falta de provas.

Se estivesse vivo hoje, Lucas Vargas Terra teria 34 anos.

 

Você já conhecia o triste crime que tirou a vida de Lucas Terra? Deixe nos comentários.

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