O que está acontecendo com Cuba?

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No último domingo (11), Cuba viveu um dos seus maiores protestos das últimas décadas. Gritando “Abaixo a ditadura” e “Pátria e vida” – uma referência ao lema oficial do regime, “Pátria ou morte” -, os cubanos protestavam contra a crise econômica e sanitária do país, muito agravada pela pandemia de COVID-19.

Os protestos tiveram início na cidade de San Antonio de los Baños, a sudoeste de Havana, e logo se espalharam por várias partes da ilha. As cenas foram transmitidas ao vivo pelo Facebook e, assim, mais pessoas puderam aderir ao movimento em outras cidades.

Como resposta, a polícia reprimiu duramente as manifestações, e o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, convocou seus apoiadores para enfrentá-las. Além disso, o governo restringiu parcialmente o acesso à internet do país e realizou cortes nas linhas telefônicas, de forma a dificultar o fluxo de informações entre os opositores.

Foto: Getty Images

Quais fatores levaram às manifestações?

Economia estagnada

Cuba já estava em crise antes da pandemia de COVID-19. A economia do país tinha sido fortemente afetada pelo endurecimento do embargo norte-americano durante a gestão de Donald Trump. Com a chegada de Joe Biden ao poder nos Estados Unidos, essa política foi mantida.

Em 2020, o PIB (Produto Interno Bruto) cubano se contraiu 11% – o pior resultado em três décadas. A incidência do coronavírus na ilha afetou drasticamente o turismo, um dos pilares econômicos e principais fontes da entrada de moeda estrangeira da ilha.

Para piorar, no início deste ano, o governo cubano propôs um novo pacote de medidas econômicas para unificar o peso cubano e o peso conversível – as duas moedas oficiais de Cuba. Isso elevou significativamente os salários e as aposentadorias, mas também aumentou o preço de bens e serviços – isto é, levou a uma alta da inflação.

Além disso, com a chegada do verão, a população também vinha sofrendo com a falta de energia elétrica e apagões. Soma-se a isso a escassez de alimentos, remédios e outros produtos básicos – já que o país precisa importar 70% do que consome.

Para driblar a liquidez, foram criadas lojas de moedas conversíveis – nas quais só se pode pagar com cartões de créditos. No entanto, no comércio de peso cubano, há cada vez menos mercadorias disponíveis. Desde o mês passado, não estão sendo aceitos pagamentos em dólar – principal moeda na qual os cidadãos recebem as suas remessas.

Como a pandemia de Covid-19 afetou Cuba?

Essa foi a primeira vez que um grande grupo de cubanos sai às ruas desde o Maleconazo, em 1994. Naquele ano, o país sofreu uma grave crise econômica, e o PIB chegou a cair 34%. Isso aconteceu durante o chamado Período Especial – como ficaram conhecidos os anos após a dissolução da União Soviética. Com a perda da grande aliada, Cuba começou a sofrer com as sanções impostas pelos Estados Unidos.

Agora, a ilha volta a enfrentar uma longa crise econômica e sanitária. Embora tenha controlado a pandemia em 2020 e liderado a criação de uma vacina própria, Cuba vem passando por um surto da doença nas últimas semanas. Só no domingo – no dia das manifestações, o país, com 11,2 milhões de habitantes, registrou 7 mil novos casos e 31 mortes. A oposição, no entanto, afirma que os dados reais são muito piores e que muitas cidades estão à beira de um colapso.

No fim de semana, um grupo de opositores pediu ao governo que estabelecesse um “corredor humanitário”, a fim de receber ajuda estrangeira para controlar a pandemia. A proposta, no entanto, foi descartada pelas autoridades cubanas. Enquanto isso, as redes sociais foram tomadas por mensagens com as hashtags #SOSCuba e #SOSMatanzas.

Os hospitais estão sobrecarregados nas províncias mais afetadas – principalmente Matanzas, a leste da capital Havana. Além disso, faltam medicamentos e produtos hospitalares básicos, como oxigênio.

Qual o papel da internet móvel durante as manifestações em Cuba?

Foto: Reprodução/Facebook

Foi só em dezembro de 2018 que os cubanos passaram a ter acesso à internet de maneira mais ampla por meio de seus telefones celulares. Desde então, manifestações tem ganhado força pelas redes sociais e atraído mais pessoas para a luta em Cuba.

Em 2019, por exemplo, ocorreram campanhas online contra o Referendo Constitucional, que visava validar a nova Constituição do país. Além disso, houve convocações de marchas nas redes pelos direitos das pessoas LGBTQIA+. Em 2020, as manifestações do Movimento San Isidro – de oposição ao governo cubano – foram transmitidas ao vivo pela internet.

No último domingo, os protestos tiveram início na cidade de San Antonio de los Baños. Pelo Facebook, as primeiras transmissões ao vivo da manifestação tiveram início às 9 horas da manhã e, logo, geraram focos em outras partes da ilha, como um efeito dominó. Vários vídeos foram publicados nas plataformas que mostram manifestantes nas ruas. Isso foi encorajando mais pessoas a aderir ao movimento. Manifestações em favor do regime também foram realizadas.

Qual a posição do governo cubano?

Foto: Getty Images

Herdeiro de Fidel e Raúl Castro, o presidente de Cuba e primeiro-secretário do Partido Comunista, Miguel Díaz-Canel é o primeiro líder em 62 anos que não vivenciou a Revolução Cubana. Ainda assim, ele afirmou que os protestos buscavam “fragmentar a unidade” do povo cubano e desacreditar “o trabalho do governo e da revolução”. Em uma transmissão ao vivo pela rádio e pela televisão, na segunda-feira, Díaz-Canel ainda atribuiu a culpa dos protestos ao embargo norte-americano.

Ainda na segunda, o governo cubano confirmou a morte de um manifestante em um bairro da periferia de Havana, capital do país. Estima-se que outras 150 pessoas foram presas até agora, segundo a ONG Human Rights Watch. O acesso à internet continua restrito e há cortes nas linhas telefônicas.

Fonte: El País, BBC, O Globo e R7

 

 

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